DRAFT5

As melhores no Brasil em 2021: (5) – Olga

Jogadora colecionou EVPs durante passagens pela BD e FURIA em 2021

por Ricardo Vaz de Melo / 04 de Jan de 2022 - 18:00 / Capa:

Atualmente, quando se pensa nas melhores jogadoras do Brasil e nas mais influentes, com certeza o nome de Olga "Olga" Rodrigues é um dos que vem na mente. A jogadora de 27 anos quebrou barreiras, lutou contra o preconceito e espantou o má olhado para, em 2021, ser eleita a quinta melhor jogadora no Brasil, de acordo com a lista elaborada pela DRAFT5.

Essa é a primeira vez que Olga aparece no nosso ranking anual das melhores jogadoras, entretanto, engana-se quem acha que a jogadora só começou a ter destaque agora. Aliás, Olga é velha de guerra. Seu primeiro contato com o Counter-Strike foi em 2004, através de um primo, que na época jogava competitivamente.

Porém, Olga era muito nova e ainda engatinhava no FPS da Valve. "Eu não sabia nem andar e nem atirar. Eu fiquei muito tempo jogando só casual, somente nas lan houses. Depois, em 2007, meu pai montou um pc e a gente conseguia jogar de casa", conta.

O desejo de levar o jogo um pouco mais sério teve início em 2009, quando Olga começou a jogar alguns campeonatos online. Porém, o sonho durou pouco tempo, já que naquele ano o cenário competitivo já estava começando a acabar. "Só em 2009, 2010, eu comecei a jogar alguns mix, jogar alguns campeonatinhos de internet, só que o cenário já estava morrendo, ninguém focava muito".

NOVO JOGO

Em 2011, o cenário competitivo de Counter-Strike 1.6 já estava praticamente chegando ao fim. Foi nesse ano que o computador de Olga estragou e a jogadora decidiu deixar a paixão de lado por conta do lançamento do Counter-Strike: Global Offensive, que aconteceu em 2012. Na opinião da jogadora, naquela época, o jogo seria muito ruim. "Eu nem cogitei migrar para o CS:GO. Eu chamava o jogo de ruim, de horrível. Me perguntava o que haviam feito com o CS", relata.

Entretanto, em 2014, Olga foi chamada por alguns antigos amigos para jogar e decidiu se aventurar como IGL, uma vez que as condições para jogar não eram as melhores e ela preferiu focar em uma função mais tática. "Eu falei pra eles que não conseguiria jogar, que o jogo era muito pesado e que eu não ia conseguir nem atirar. Acabou que eu fiquei como IGL, fazendo um suportezinho. Meu primeiro time foi o Gameking".

Depois de seu primeiro campeonato no CS:GO, uma liga na Games Academy, que Olga percebeu que tinha futuro no novo FPS da Valve.

"Nisso eu percebi que tinha um futuro na competição. Porque nós já estávamos entre os melhores times, mesmo sendo poucos. De doze a gente ficou em sexto. Com um time que a gente tinha acabado de montar".

SUPERAÇÃO E PAUSA

Além da GameKing, Olga passou também por equipes como Dai Dai Gaming, Site CS e Remo Brave eSports. No último, foi onde a jogadora viveu uma das maiores emoções da carreira. Olga venceu dois torneios consecutivos, os dois primeiros títulos de sua carreira. Em 2016, a Remo Brave foi campeã da Liga Profissional Gamers Club: August 2016 e Brasil Game Cup 2016, campeonato presencial.

"A gente chegou na LAN e amassou. Ganhamos da Team oNe, da CNB, times com muita estrutura. Foi meu primeiro título presencial, me marcou muito".

Porém, nem tudo na vida são flores. Apesar dos títulos e das equipes, Olga nunca recebeu um salário digno para viver somente de Counter-Strike. Além de passar horas do dia praticando e treinando, a jogadora fazia malabarismo pelas ruas da cidade para ganhar dinheiro. Por conta disso e por conta de questões relacionadas ao gênero da jogadora, Olga decidiu dar uma pausa na carreira.

"Eu já estava começando a ter umas questões com o meu gênero. Foi quando eu decidi dar uma afastada e parei com o CS. Eu fui morar com umas amigas, eu fui pensar na minha vida. Eu vendi o meu PC pra conseguir dinheiro. Eu pensei até em desistir do jogo", conta.

Olga atuando pela BootKamp em 2018 | Foto: Stéfanie Neuman/DRAFT5 Olga atuando pela BootKamp em 2018 | Foto: Stéfanie Neuman/DRAFT5

TRANSIÇÃO

Olga sempre foi Olga. Porém, somente em 2018 a jogadora decidiu mostrar isso para todo o cenário. De início, Olga começou a transição para o cenário feminino sendo coach de alguns times. Em seguida, largou a função para virar jogadora do próprio time que comandava, a Bootkamp Gaming Female. Para a jogadora, não houve dificuldades em ingressar em um novo e diferente cenário.

"Eu já conhecia muito o cenário feminino porque eu já havia sido coach do próprio time que eu entrei, a Bootkamp, e de um time anterior, que foi a NumberSix. Então eu já estava estudando cada menina. É meio louco, porque quando você é coach você acaba estudando mais do que quando é player. Você acaba conhecendo muito cada jogadora. Eu me senti muito preparada quando entrei".

Porém, se na parte tática e de adaptação Olga não encontrou nenhuma dificuldade, na aceitação do cenário ela encontrou. A jogadora sofreu muito preconceito quando anunciou que seria a primeira travesti a participar do cenário feminino de Counter-Strike. Inclusive de pessoas próximas a ela.

"O engraçado é que quando eu tava como coach, todo mundo achava super legal ter uma pessoa trans no time. Falavam que precisávamos de diversidade no cenário. Mas quando eu virei jogadora, para essas pessoas não podia. Achei muita gente hipócrita, inclusive pessoas que eram minhas amigas na época".

Apesar disso, Olga se apegou no apoio das pessoas que não são preconceituosas para dar continuidade em sua carreira e focar nas coisas positivas. No fim, acabou virando inspiração para muitas outras. "Eu foquei muito em quem estava me apoiando. Eu aprendi a ignorar. Não ignorar totalmente, porque existem coisas que você não consigo deixar de sentir. Mas o foco eu mantive nas coisas boas. Isso me ajudou muito a chegar onde eu estou. Eu percebi que virei inspiração pra muita gente. Hoje em dia existem muitas pessoas trans jogando, que estão em time. É um sonho que está sendo realizado".

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CARREIRA

Reprodução: Black DragonsReprodução: Black Dragons

Depois da passagem pela Bootkamp, Olga representou a New Eagles Team por um curto período de tempo. Em seguida, foi contratada pela Black Dragons, onde ficou por mais de dois anos. Ao longo de todo esse período, Olga só conquistou um título: a Athena's Challenge 2021. Para a jogadora, foi o título mais marcante do ano, apesar de não ter sido o único.

"Foi um título muito marcante, porque estava preso na garganta o grito de campeã. Talvez tenha sido até mais marcante que os outros títulos que conquistei com a FURIA. Apesar do título da GC Masters ter sido marcante também, por ser um campeonato que eu queria muito ganhar, o da Athena's teve um peso maior. Pesou mais por causa do tempo que a gente estava sem ganhar um título pela Black Dragons".

Apesar da identificação com a organização, a sua transferência para a FURIA foi um salto enorme na carreira. Desde que entrou na organização, em setembro desse ano, Olga conquistou três títulos: BGS Esports 2021 Female, Gamers Club Liga Feminina: 4th Edition 2021 e Gamers Club Masters Feminina IV.

"Foi um grande salto na minha carreira, por questão de desempenho. Estrutura eu sempre tive na Black Dragons, eu era a player que mais tive apoio em tudo. Mas em relação a desempenho foi um salto do caramba. Os títulos falam mais do que qualquer coisa".

A 5ª MELHOR DO BRASIL EM 2021

O desempenho de Olga em 2021 foi excelente. A jogadora ajudou duas equipes diferentes a conquistar títulos na temporada. Pela Black Dragons, no início do ano, Olga foi importantíssima para a conquista da Athena's Challenge 2021 . Já na FURIA, foi fundamental para ajudar as panteras a conquistar a BGS Esports e a Série Feminina #4, campeonatos nos quais foi eleita MVP.

Ao todo foram 2 MVPs e 10 EVPs durante a temporada, sendo ela a jogadora que mais conquistou EVPs (exceto EVP1) durante 2021.

Olga teve 102 DRAFT5 Points, dezoito pontos a mais que a sexta colocada e apenas dois a menos que a quarta. Números que fundamentam um ano de sonhos da jogadora, que nunca parou de lutar para ter seu lugar na mais alta prateleira do cenário feminino de Counter-Strike brasileiro.