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As melhores no Brasil em 2020: (4) – bizinha

Com 2 MVPs e 4 EVPs até dar uma pausa na temporada em outubro, bizinha é a quarta melhor jogadora no Brasil em 2020

por Pedro Umberto  / 05 de jan de 2021 - 14:39 / Capa: Arte/DRAFT5
Nascida em Itaguaí, interior do Rio de Janeiro, Bruna "bizinha" Márvila é mais um dos personagens que chegam ao Counter-Strike por meio de uma relação familiar. Com quatro anos, teve seu irmão mais velho como intermediário na relação com o mundo virtual e, consequentemente, com o FPS da Valve. Por conta dos dez anos de diferença entre os dois, a mesma era "muita nova para conseguir entender", de acordo com ele. Entretanto, aquela menina já mostrava o que viria a ser: imparável.

PRIMEIROS PASSOS NO PRIMEIRO SONHO


Apresentada ao Counter-Strike com quatro anos, a paixão pelo jogo começou cedo. Enxergando potencial naquela jovem garota, o irmão tornou-se um "instrutor particular" para a evolução dentro do jogo. Como o ano era 2003, a internet ainda era discada, o que deixava complicado a possibilidade de jogar online, mas não impossibilitava bizinha de entender o cenário, escutar o MIBR, e sonhar com o profissional. "Basicamente CS foi meu primeiro sonho na vida", revelou à DRAFT5.

Continuando a jogar, mas sempre com supervisão de algum adulto em casa, não demorou para a caçula dar os primeiros passos em um cenário mais avançado. Depois de dois anos, estava "preparada para jogar com outras pessoas" e foi disputar partidas na primeira lan house - o que na época era luxo.

Por ser considerado um jogo violento, existia uma certa burocracia para crianças jogarem no Rio de Janeiro, de acordo com bizinha. Fazendo o cadastro e garantindo a vaga na lanhouse, deu os primeiros passos em um espaço mais "competitivo", jogando diversos mix's com os meninos e sendo a única menina no meio de todos.

Com o Counter-Strike aberto, bizinha na lan house | Foto: Arquivo Pessoal


No famoso amor à primeira vista, desde os primeiros passos a jogadora não largou mais o Counter-Strike por vontade própria. Porém, com o iminente fim da versão 1.6, teve que arcar com as consequências de tentar viver "sonhos de pessoas comuns, ausentes do meio dos jogos", como a mesma citou. Com isso, decidiu focar nos vestibulares com 13 anos, perdurando até os 16, mas com a famosa paixão voltando à tona pelo lançamento da nova versão.

Com 16 anos, resolveu retornar ao Counter-Strike (agora Global Offensive), mas acabou se assustando pelas diferenças entre as duas versões. Todavia, com o passar do tempo, focou em melhorar no jogo e fazer upgrades no computador, garantindo com que tivesse melhor desempenho.

HORA DE COMPETIR


"Não faço ideia, sempre competi". Foi assim que bizinha definiu os primeiros passos em uma cena mais profissional.

Começando no 1.6, participou de diversos "fakes", ou seja, equipes que não representam uma organização. Já no CS:GO, começou na ultraviolent, time que tinha a mesma base da equipe que viria a defender posteriormente a SemXorah. Depois de brilhar na SX, rumou à Team One, primeira organização de grande porte representada.

Possuindo um passado sem tantas recordações, classifica esse "espaço em branco" pela falta de resultados. "Antes eu não tinha muito destaque, passei 10 anos perdendo (risos). Não foi fácil, mas um dia eu consegui uma oportunidade", falou. E, sem dúvidas, fez mais que bom uso da mesma.

Após passagem como golden girl, rumou à divisão feminina da Team Innova, clube emergente no cenário dos esportes eletrônicos até então. Por lá, chegou a superar o ex-clube duas vezes, uma conquistando a vaga na Brasil Game Cup SP 2017 e a outra no showmatch feito no Rock in Rio Game Experience 2017, perdendo a final do evento para a Merciless Gaming, time de Felipe "delboNi" Delboni.

Pouco mais de três meses depois da ascensão meteórica das meninas na Innova, o elenco seria vendido para a Keyd Stars, que naquele momento, adentraria o cenário feminino pela primeira vez. No time, além de bizinha, estavam jogadoras como Pamella "pan" Shibuya, Camila "cAmmy" Natale, Juliana "showliana" Maransaldi, Gabriela "GaBi" Maldonado, e o treinador Guilherme "walck" Moreno.

Foto: Felipe Guerra


Logo de cara as guerreiras levantaram o troféu da BGS 2017, seguido de duas vagas conquistadas: WESG 2017 femIntel Challenge Katowice 2018. Antes de rumar à águas internacionais, também conquistaram o troféu da XLG Summer, vencendo a Team One na grande final.

Representando o Brasil em Katowice, Polônia, a Keyd venceu a estreia contra as chinesas da GO Home, caíram para as favoritas da Dignitas, mas a consagração viria logo depois na partida decisiva do grupo contra a Singularity de Petra "Petra" Stoker, onde conseguiram uma vaga inédita nas semifinais, o sonho do título pararia, no detalhe, na Squared Prospect. Caindo para a decisão de terceiro lugar, a equipe perderia para a RES Gaming de Julia "juliano" Kiran e Zainab "zAAz" Turkie, dupla que segue junta até hoje dominando o cenário feminino.

Apesar da não-conquista do torneio, a campanha das guerreiras foi majestosa. bizinha e showliana foram os destaques na questão estatística, além disso, quinteto trazia para casa um feito jamais visto por equipes brasileiras no CS:GO internacional.


Depois de quase um mês, foram à China jogar a WESG 2017, onde dessa vez não passaram da fase de grupos ao empatar com a Russian Forces na partida final. Mas, por possuir a mesma pontuação das russas, o critério de desempate (saldo de rounds) resolveu, fazendo com que as brasileiras caíssem fora da competição.

Mais uma vez destaque, bizinha avaliou a experiência que teve no país oriental: "A experiência é boa, sem dúvidas agrega muito em conhecimento de jogo e lidar com a pressão. Mas, apesar de sermos a equipe brasileira que chegou mais longe no mundial, eu gostaria de ter resultados melhores, pois ao meu ver, era possível", afirmou.

Já em maio, logo depois de conquistar a Liga Feminina Alienware Gamers Club: April 2018, as meninas acabaram deixando o clube, rumando a um novo destino.

UM PASSO PARA TRÁS


Rompendo barreiras internacionais, 6 de setembro de 2018 tinha tudo para ser uma marca para o cenário feminino do Brasil, visto que a Optic tinha investido na "Guess Who's Back?", ou melhor, ex-Vivo Keyd.

Quinteto sob a camisa da organização internacional | Divulgação/Optic Gaming


Em menos de um mês, foram dois eventos que conquistados pelas meninas no clube internacional, sendo eles a Game Experience 2018 FemaleBrasil Game Cup 2018. Em ambas as ocasiões, soberania do início ao fim e tudo parecia estar maravilhoso.

Até que, de surpresa, os norte-americanos anunciariam a saída das jogadores nos primeiros dias de novembro, sem ao menos justificar o motivo. De acordo com especulações feitas na época e tweet de pan, a debandada tem relação com o caso Nikhil "forsaken" Kumawa, que teria sido pego utilizando auxílio externo enquanto defendia a divisão indiana da Optic.

Com isso, passaram a defender a tag “Time das Lindas”, onde conquistaram a GAMECON Challenge CS:GO de forma tranquila e a vaga na Intel Challenge Katowice 2019, mas ainda sem organização para representar.

DOIS PARA FRENTE


Dia 23 de fevereiro de 2019 foi a data oficial do anúncio da paiN Gaming, revelando a contratação do TiMe DaS LiNdAs, que agora com contratado firmado, iria disputar dois campeonatos internacionais (Intel Challenge Katowice 2019 e WESG 2018).

Na Polônia as meninas lutaram no grupo, mas tiveram a má sorte de cair na decisiva da chave contra a Dignitas, que dois jogos depois, tornou-se a grande campeã daquela edição. Já na WESG, o critério de desempate assombraria mais uma vez bizinha, caindo fora da competição por ter quatro rounds a menos que a Carnage.fe.

Retornando ao Brasil, a paiN dominou a região, somando quase 1000 dias sem perder um presencial em solo nacional, mas também teve mudanças com a saída da veterana cAmmy para a chegada de Izabella "izaa" Galle. No final de 2019, voltariam a conhecer a derrota contra a Vivo Keyd no GIRLGAMER Esports Festival 2019, perdendo a vaga em Dubai.

Foto: Rafael Veiga/DRAFT5 Foto: Rafael Veiga/DRAFT5


"Depois de quase 3 anos juntas, perdemos um campeonato presencial e não vejo isso com maus olhos. Acho que fomos a equipe feminina que mais ficou sem perder e não acho que nenhuma line-up conseguirá fazer o que a gente fez. Todo reinado chega ao fim e esse foi o nosso por não ter conseguido vencer a GIRLGAMER", afirmou.

"Depois disso, remontamos a line e fomos campeã do classificatório da WESG, mas pouca gente viu por conta da pandemia, que acabou deixando a gente sem o mundial. Mesmo caindo, nos reerguemos e demos a volta por cima". De fato, a reta final de bizinha na paiN foi com mudanças, com a recém chegada Ana "annaEX" Carolina. Foi justamente na seletiva do torneio mundial em que bizinha teria o primeiro EVP do ano.

TEMPORADA FURIOSA


Já chegando em 2020, bizinha passou a defender a FURIA, substituindo Elaine "mindle" Takahashi e voltando a competir ao lado de GaBi e izaa.

Enquanto pantera, dominou o Brasil de uma forma majestosa, vencendo três edições da Liga Feminina e conquistando o Girl Power Invitational. Além disso, também levantou o troféu da primeira Gamers Club Masters feminina da história, onde posteriormente receberia o título individual de MVP DRAFT5 do Major brasileiro.


Gaming Culture Invitational Convergence 2020Esportsmaker Invitational foram os campeonatos disputados pela organização brasileira. No primeiro, vice-campeonato para o Santos e-Sports, mas com direito a vitória em um mapa dos cinco disputados, feito inédito em torneios mistos. Já no segundo a performance não foi a mesma, mas honrável vide o grupo que caiu, tendo que enfrentar a hegemônica BOOM e a forte Paquetá.

Mas, mesmo com todas as conquistas, mudanças era necessárias para atingir o que mais importa na vida de um profissional: felicidade e prazer. E por isso, bizinha optou por sair da melhor equipe feminina do Brasil.

"Eu tive bons momentos na FURIA onde realmente me senti bem, mas a maior parte foi por conta que eu estava jogando e amo jogar. Eu não me sentia parte daquilo na maior parte do tempo, e foi uma decisão que demorei muito para tomar. Esperei todos os campeonatos importantes e não tinha conhecimento de mais uma GC Masters, mas fiz de tudo para que o time tivesse tempo de se reestruturar sabendo que eu não estaria mais lá. A decisão foi minha para priorizar minha saúde mental que estava esgotada. Parei de ver propósito no CS, que é o que mais amo de fazer e, independente do futuro, posso assegurar que não me arrependo. Eu não tomo decisões explosivas e foi algo que pensei muito", disse sobre a surpreendente saída do elenco das panteras.

A 4º MELHOR EM 2020


Agora cotada como uma das supostas representantes do time feminino do MIBR em 2021, a imparável bizinha cumpriu o sonho de uma menina de 6 anos e tornou-se a quarta melhor jogadora do Brasil em 2020. Classificando a temporada como "bem complicada", mas de muitas superações - seja psicológica ou dentro do jogo -, a profissional não conseguiu elencar a posição que ficará, mesmo afirmando que sabe dos MVP's que teve durante o ano.

Melhor jogadora da GC Masters fem com 1.42 de rating 1.0, +34 de K/D diff e 118 de ADR durante a competição, este não é o único título individual da atleta. Gaming Culture também teve a jogadora elencada no topo, sendo este um torneio misto. Girl Power Invitational, Liga Fem 3º tri, o primeiro split da BGS Esports e a supracitada WESG foram os outros quarto campeonatos que bizinha aparece na listagem.

As conquistas de bizinha durante a temporada | Arte/DRAFT5


Ocupando a quarta colocação, Bruna Márvila deixou de ocupar uma posição acima da listagem pela inatividade recente no competitivo, ficando de fora de campeonatos como a Liga Feminina 4º trimestre, GC Masters fem II e Rainhas do Clutch, os dois últimos conquistados pela FURIA.

AMBICIOSO 2021


Ainda sem clube, bizinha deseja fazer uma temporada ainda melhor e, quem sabe, marcando presença mais uma vez na listagem feita pela DRAFT5: "Acredito que ser reconhecida é uma consequência do bom trabalho feito. Vou focar para melhorar ainda mais em 2021 e, se estiver na lista, ficarei feliz".
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